Natasha... “Para onde vai a dor? E os gritos por clemência? Quem dá importância ao tormento de nossas vidas? Quem as pesa na balança da justiça? A vida é fluida. A morte é sedenta”.
Você lembra do piano? Aquele antigo e empoeirado piano, amarelecido pelo tempo? Ele continua aqui, mas agora encontra-se todo negro, coberto pelas cinzas do incêndio. Porém, ele ainda emite algumas notas.
Natasha, ontem eu estava sentado em frente ao piano, curvado diante das teclas como se tivesse um grande peso em minhas costas, tamanha era a minha tristeza. E tocando algumas notas ao acaso, percebi que eu não estava só.
A vampira-fantasma, que três anos atrás me atacou, deixando-me desacordado, estava atrás de mim, sugando minha energia.
Eu não demonstrei a menor resistência. Pelo contrário, deixei que ela continuasse sugando minha vida.
Natasha, você foi minha razão de viver, e agora, sem a sua presença alimentando meus sonhos, perdi toda a vontade de continuar vivendo.
Já se passaram anos desde seu desaparecimento, anos que eu saio à sua procura, e após as noites sem sucesso, venho para este prédio abandonado e em ruínas, onde vez ou outra escrevo uma dessas ensangüentadas cartas em nosso apartamento desolado, tentando suportar a tristeza dos meus anos de solidão.
Ontem, enquanto eu me entregava à morte, numa complacência serena, Luna e seu cachorro amarelo me observavam.
O interessante, Natasha, é que tive uma leve impressão de que, naquele momento, eu poderia ficar ao lado deles logo após a vampira-fantasma sugar toda a minha vida. Mas naquela noite eu não morri. Algo estranho aconteceu, e eu lembro disso como uma triste lição que me abriu os olhos...
Enquanto passava a mão na cabeça de seu cachorro amarelo, Luna, finalmente, falou comigo:
— Eu sei que errei, carregando comigo, para o purgatório, um vazio difícil de suportar. Mas eu queria que alguém entendesse o quanto é difícil para mim, além desse meu vazio, conviver com a dor que me fizeram sofrer.
E eu respondi:
— Não posso ajudar você, Luna. A tristeza é um fardo muito pesado que está me deixando sem ação.
Mas como se não estivesse me ouvindo, ela apenas continuou.
— E eu achei que você pudesse entender, mas vejo que está cego de amor por sua amada desaparecida, desde a noite em que nos conhecemos, mesmo que vagamente, quando demonstrou que se importava comigo.
— O que me resta é continuar assombrando seu lar, como alma que vaga na dor de meus lamentos que não são ouvidos.
Após dizer essas palavras, Luna gemia dolorosamente, como uma canção que traduzia seus lamentos e fazia sua alma flutuar de um lado para o outro pelo apartamento, como se ela estivesse navegando em seu próprio mar de dor.
Natasha, ao mesmo tempo eu sentia a vida esvaindo-se de meu corpo. Aquele espírito-vampiro, com a forma de uma mulher, não dava atenção à presença de Luna e continuava tirando minha vida, com sua boca em meu pescoço, sugando não o meu sangue, mas sim diretamente toda a energia que dava vida ao meu corpo.
Então algo extraordinário começou a acontecer. Luna emitia seu gemido de forma mais profunda e lancinante, e o apartamento começou a tremer. Os móveis cobertos de cinzas, assim como os demais destroços, começaram a levitar. Garras invisíveis arranhavam as paredes. Até que Luna surge na minha frente, e com as mãos segurando minha cabeça, ela diz:
— Agora olhe em meus olhos, e eu vou te mostrar o que realmente é dor.
Natasha, o que vi a seguir foram diversas imagens do passado de Luna invadindo minha mente.
A infelicidade de andar sozinha e não ter com quem conversar. Fora forçada a seguir o caminho da prostituição, pela própria mãe, e era conhecida por todos no colégio através de sua imagem divulgada por essa indústria pornográfica. Vivia discriminada, e a violência das surras e abusos que sofria, no próprio colégio, fez com que ela se afastasse cada vez mais do meio social. Eu podia ver e sentir cada lágrima, cada ferida e hematoma, cada cuspe e abuso...
E ela me dizia:
— Eu só queria que alguém entendesse minha dor!
Não encontrou refúgio em casa, o padrasto a estuprava violentamente, e sua mãe, sendo sua cafetina, roubava todo o dinheiro da menina para custear suas drogas e jogatinas. A mãe também a usava como escrava nos serviços domésticos, onde o excesso de trabalho denunciava algo abusivamente além do que podemos chamar de “empregada”. Não havia espaço para sonhos, somente olheiras no rosto soturno de Luna. E até a água que bebia era motivo de cobrança.
Tentou agarrar-se na esperança de acolhimento e socorro de parentes, mas a família que lhe restava era egoísta. Jogava-a no sótão, como um rato que não desejavam ter por perto.
E mais uma vez eu vi e senti cada humilhação que ela sofria, cada desprezo e expressão de nojo quando a viam.
E ela me dizia:
— Eu só queria que alguém entendesse minha dor!
Tentou fugir. Foi para as ruas, onde encontrou a fome e o desespero. Sentia o frio até na alma. Fraca e magra, foi abusada inúmeras vezes. Viu de perto o olhar de abandono dos miseráveis com quem agora dividia espaço. E até conhecer uma vampira que lhe deu a mão (salvação disfarçada de morte), sentiu cada parte de seu corpo ficar impregnada pela imundície de sua triste realidade.
E de forma dolorosa, vi e senti cada olhar de tristeza ao se deparar com meninas de sua idade, passando pela rua, trajando a imagem de seus sonhos, enquanto ela estava ali, jogada e abandonada, como se fosse lixo.
E ela me dizia:
— Eu só queria alguém que entendesse minha dor!
Todas as imagens e sentimentos vieram de uma só vez, invadindo minha mente, corrompendo minha alma. E quando eu pensei que tinha terminado, Luna grita:
— MINHA ENORME DOR!!!
Então tudo que eu vi e senti aumentou de forma assustadora, como se aquela confissão, dessa vez, estivesse carregada de rancor. Uma tristeza tão grande que me fez gritar. Senti-me completamente abalado e perturbado. E para meu espanto, após cair atordoado sobre o piano, vejo ao meu lado o espírito-vampiro flutuando de costas para o chão. O impacto daqueles sentimentos também foi demais para aquele ser que me sugava, e que ocasionalmente acabou por receber também parte da essência da dor de Luna.
Tudo ficou calmo a partir desse momento. Luna foi embora, com sua imagem se diluindo até desaparecer completamente, como fez também o cachorro amarelo.
Tudo que estava levitando caiu, móveis e destroços estavam agora espalhados pacificamente pelo chão. E as misteriosas garras pararam de arranhar as paredes.
Após essa experiência avassaladora, uma coisa realmente extraordinária também aconteceu. Misteriosamente, uma luz entrou pelo canto superior do apartamento, e o espectro-vampiro levitou em sua direção, na posição que agora se encontrava, de costas para o chão, até desaparecer junto com a luz.
Natasha, seria a dor uma cura? Não importa, porque o piano vermelho está queimado, a tinta vermelha das paredes descasca como aquele teu esmalte com cheiro de sangue. E sua foto que deixei sobre o piano está quase toda queimada. Tudo bem, não parecia mesmo você, seus olhos ficaram VERMELHOS!